Um espelho de tudo o que me vai pela cabeça

quarta-feira, novembro 23, 2005

E algures no mundo umas árvores morreram para que ela escrevesse isto...

De um mail (mantive o formato, por preguiça)


Por Nuno Markl
>
>Johannes Gensfleisch Zur Laden Zum Gutenberg. Nascido em 1398.
>Presume-se que tenha falecido a 3 de Fevereiro de 1468. Um operário
>metalúrgico e inventor alemão, a quem se deve, na década de 1440, a
>invenção da imprensa.
>O poder da criação de Gutenberg seria demonstrado em 1455, ano em que o
>inventor editaria a famosa Bíblia em dois volumes.
>
>Sim, a Bíblia de Gutenberg tornou-se num marco notável na História das
>palavras impressas. Até ao passado fim-de-semana.
>
>No passado fim-de-semana, o semanário português O INDEPENDENTE
>publicou, discretamente, no seu suplemento VIDA, uma coluna de opinião
>da autoria de Catarina Jardim. Quem é Catarina Jardim? Nada mais, nada
>menos do que a popular Pimpinha Jardim. Que fica desde já a ganhar a
>Gutenberg neste ponto – Gutenberg não tinha nenhum nome de mimo. Ele
>era capaz de gostar de ter um nome de mimo – não deve ser fácil ser
>Johannes Gensfleisch ZurLaden Zum Gutenberg - mas creio que ainda não
>era muito comum, na Alemanha do século XV, atribuírem-se nomes de mimo.
>Muita sorte se alguma das namoradas lhe chamou alguma vez JOGU, o único
>diminutivo aceitável de Johannes Gutenberg.
>
> E mesmo assim não é muito aceitável, porque soa demasiado próximo a
>iogurte, e isso é uma indústria completamente diferente daquela na qual
>Gutenberg se movia.
>
> Voltemos então a Catarina Jardim e à sua coluna no jornal. O título
>do artigo é TODOS A BORDO, e trata-se - como o nome indica - de um
>relato detalhado sobre um cruzeiro a África que a jovem fez.
>
> Ela diz, no início "O cruzeiro a África foi uma loucura, pode mesmo
>dizer-se que foi o cruzeiro das festas - como alguns dos convidados
>chamavam ao navio em que Luís Evaristo nos presenteou com MAIS UM BeOne
>on Board".
>Gosto da maneira como ela fala, sem explicações nem perdas de tempo, de
>pessoas e iniciativas sobre as quais boa parte dos leitores não faz a
>mínima ideia quem sejam ou no que consistem. Nada contra - isto faz com
>que qualquer leitor se sinta cúmplice e rapidamente imerso no universo
>Pimpinha.
>
>Adiante.
>
>Ficamos a saber que ela esteve em Tânger, e que a experiência foi,
>possivelmente a mais marcante da vida desta jovem. Passo a ler o que
>ela
>escreve: "Tânger é bastante feia, muito suja e as pessoas têm um
>aspecto assustador."
>
> Nunca fui a Tânger, mas já fui a sítios parecidos e subscrevo
>inteiramente as palavras de Pimpinha. Malditas pessoas pobres, que só
>estragam o nosso planeta com a sua sujidade e o seu ar assustador! É
>preciso ser-se mesmo ruim para se escolher ser pobre, quando se pode
>ser tão limpo e bonito.
>Quando se pode ser, em suma, rico.
>
> Eu penso que a Pimpinha acertou em cheio na raiz de todos os
>problemas mundiais da pobreza. Andam entidades a partir a cabeça em
>todo o mundo a pensar nisto, andou a Princesa Diana a gastar tantas
>solas de sapatos caros a visitar hospitais, capaz de apanhar uma
>doença, quando nós temos a Pimpinha com a solução. Se calhar basta
>lavar estas pessoas, e talvez - acompanhem-me neste raciocínio;
>Pimpinha vai ficar orgulhosa de mim - se calhar basta lavar estas
>pessoas, e em vez de gastar rios de dinheiro a mandar comida para
>África, porque não os Médicos Sem Fronteiras passarem a andar munidos
>de botox. Botox! Reparem: não é fazer cirurgias plásticas a toda esta gente feia que vive nestes países, porque isso seria demais.
>
> Mas, que diabo - botox? Vão-me dizer que não é possível ir de vez em
>quando a estes sítios e dar botox a estas pobres almas? Como o mundo
>ficariamais bonito.
>
>Adiante. Pimpinha desabafa, dizendo, sobre as pessoas de
>Marrocos,"apesar de já ter viajado muito, nunca tinha visto uma cultura
>assim - e sendo eu loura, não me senti nada segura ou confortável na
>cidade". Talvez. Mas
>
>Vamos supor que trocavam Pimpinha por, vamos supor, 10 mil camelos. Era
>um bom negócio para o Independente. Dos 10 mil, escolhia, vamos lá, 2
>para passar a escrever a coluna - o que poderia trazer melhorias
>significativas de qualidade - e ainda ficava com 9 mil 998. O que,
>tendo em conta que Portugal está a ficar um deserto, pode vir a
>revelar-se um investimento de futuro.
>
>Pimpinha prossegue: "Já em segurança, animou-me a festa marroquina, com
>toda a gente trajada a rigor". Suponho que, para a Pimpinha Jardim,
>"uma festa marroquina com toda a gente trajada a rigor", tenha sido
>assim tipo uma festa de Halloween, tendo em conta que os marroquinos
>são - como a colunista diz umas linhas acima - gente feia como nunca se
>viu.
>
> Adiante. Ela diz: "A seguir ao jantar, mais um festão que voltou a
>acabar de madrugada". Calma - esclareçam-me só neste aspecto, para eu
>não meperder.
>Portanto, houve uma festa, não é? E a seguir, outra festa. OK.
>
> Uma pessoa corre o risco de se perder nestes cruzeiros, com toda esta
>variedade de coisas que acontecem.
>
>Diz Pimpinha: "Desta vez não deu mesmo para dormir já que fomos
>expulsos dos camarotes às 9 da manhã, para só conseguirmos sair do
>navio lá para as 14 horas. Tudo porque um marroquino se infiltrara no
>barco e passara uma noite em grande, uma quebra inadmissível na
>segurança".
>
>Ora bom. Ora bom, ora bom, ora bom, ora bom.
>
>Portanto, aqui a questão é: viagens a Marrocos e festas com pessoas
>vestidas de marroquinos, tudo bem. Agora, se pudessem NÃO ESTAR LÁ os
>marroquinos, isso é que era jeitoso. Malditos marroquinos, sempre com a
>mania de estarem em Marrocos. E como é que acontece esta quebra de
>segurança? Eu compreendo o drama de Pimpinha. É que o facto da
>segurança deixar entrar um estafermo marroquino vestido de marroquino,
>numa festa com gente bonita vestida de marroquina, isso só vem provar
>que, se calhar, os amigos da Pimpinha nãosão assim tão mais bonitos do
>que essa gente feia de Marrocos. E isso é coisa para deixar uma pessoa
>deprimida.
>
>Temos nós a nossa visão do mundo tão certinha e de repente aparece um
>marroquino e uma brecha na segurança... Enfim - nada que uma ida às
>compras não resolva, ao chegar a Lisboa, certo, Pimpinha?
>
>Adiante. Diz Pimpinha: "Já cá fora esperava-nos um grupo de policias
>com cães, para se certificarem de que ninguém vinha carregado de
>mercadorias ilegais - e não sei como é que, depois de tantos avisos da
>organização, ainda houve quem fosse apanhado com droga na mala!"DROGA?
>NUMA FESTA DO JET SET PORTUGUÊS? NÃO! COMO? NÃO. Recuso-me a acreditar.
>Deve ter sido confusão, Pimpinha. Era oregãos. Era especiarias.
>
> Pimpinha Jardim declara: "Mas o saldo foi bastante positivo. Aliás,
>devia haver mais gente a arriscar fazer eventos como estes".
>
>Gosto desta Pimpinha interventiva. Sim senhor, diga tudo o que tem a dizer.
>Faça estremecer o mundo. E com assuntos que valham a pena. Aliás, era
>capaz de ser uma boa ideia escrever um e-mail ao Bob Geldof a tentar
>fazê-lo ver que essa história de organizar concertos para combater a
>pobreza em África... Para quê? Geldof devia começar era a organizar
>concertos para chamar a atenção do mundo para a falta de cruzeiros com
>festas. Isso é que era. Mania das prioridades trocadas. Que maçada
>
>Mesmo no final, a colunista remata dizendo: "Devia haver mais gente a
>arriscar fazer eventos como estes - já estamos todos fartos dos
>lançamentos, "cocktails" e festas em terra".
>
>Aprecio aqui duas coisas: a utilização do "já estamos todos", como se
>Pimpinha voltasse a acolher o leitor no seu regaço como que
>dizendo:"Sim, tu és dos meus e também estás farto de lançamentos,
>'cocktails' e festas
>
>em terra. Excepto se fores marroquino, leitor. Se for esse o caso, por
>favor, exclui-te deste 'todos' ou então vai tomar banho antes, e logo
>se vê".
>
>Depois, é refrescante saber que Pimpinha está farta de lançamentos,
>'cocktails' e festas. Eu julgava que nos últimos dias a tinha visto em
>cerca de 250 revistas em lançamentos, 'cocktails' e festas, mas devia
>ser outra
>
> pessoa. Só pode ser. Confusões minhas
>
>Em suma: finalmente, há outra vez uma razão para ler O INDEPENDENTE
>todas as semanas. Tardou, mas não falhou. Pimpinha Jardim é a melhor
>aquisição que um jornal já fez em toda a História da Imprensa mundial
>
>Nuno Markl

 
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